Resenhas

Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak

6 de janeiro de 2020
Ideias para adiar o fim do mundo

Ailton Krenak nasceu na região do vale do rio Doce, um lugar cuja ecologia se encontra profundamente afetada pela atividade de extração mineira. Em Ideias para adiar o fim do mundo, o líder indígena critica a ideia de humanidade como algo separado da natureza, uma “humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô”.

Essa premissa estaria na origem do desastre socioambiental de nossa era, o chamado Antropoceno. Daí que a resistência indígena se dê pela não aceitação da ideia de que somos todos iguais. Somente o reconhecimento da diversidade e a recusa da ideia do humano como superior aos demais seres podem ressignificar nossas existências e refrear nossa marcha insensata em direção ao abismo.

“Nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta e faz chover. […] Minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história.”

Desde seu inesquecível discurso na Assembleia Constituinte, em 1987, quando pintou o rosto com a tinta preta do jenipapo para protestar contra o retrocesso na luta pelos direitos indígenas, Krenak se destaca como um dos mais originais e importantes pensadores brasileiros. Ouvi-lo é mais urgente do que nunca. Ideias para adiar o fim do mundo é uma adaptação de duas conferências e uma entrevista realizadas em Portugal, entre 2017 e 2019.

Fonte da sinopse: Companhia das Letras

Eu cheguei até Ideias para adiar o fim do mundo, pois eu precisava ler algo de um autor brasileiro para fechar minha metas literárias e que presente foi cair justamente num brasileiro de origem Indígena, esse livro é derivado de duas palestras e uma entrevista. Uma das palestras que Ailton Krenak deu em Portugal e os demais textos também são relatos orais em palestras ministradas por ele e entrevistas.

A pergunta que não me sai da cabeça é como um livro tão pequenininho pode gerar tanta reflexão!? Não tem nenhuma história aqui que talvez você já não conheça e não tem uma resposta direta para o título do texto. O que tem aqui são provocações sobre como construímos todos os dias o fim do mundo nos pequenos gestos e esperamos pelo milagre de um adiamento.

A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade.

Você já ouviu falar do Ailton? O Ailton é um ativista brasileiro e Indígena renomado dentro e fora do Brasil. Ele estava envolvido na criação da constituição federal do Brasil em 1988 e eu não tinha noção disso. Que tapa na minha cara enquanto leitora que se deixa levar em muitas histórias e desconheço parte da própria história do meu povo.

Os pontos mais relevantes e inquietantes dos assuntos levantados é que o conceito de Humanidade está todo errado de acordo com a ótica do Krenak. É necessário que sejamos vistos como diferentes (se olharmos a questão cultural) e tratados como um ecossistema, onde a natureza é uma continuidade do nosso ser.

Quando teve a celebração dos 500 anos das viagens dos portugueses pelo mundo afora, fizeram um evento, me convidaram e eu não fui. Achei que era uma festa portuguesa, e ainda por cima ia celebrar a invasão do meu mundo, então eu não ia fazer coro com essa turma.

No atual cenário politico cultural do Brasil, precisamos conhecer nossas histórias e respeitar as diferenças. Lutar se preciso para defender os direitos das minorias, daqueles que tiveram suas terras roubadas e suas vozes caladas! Se tem alguém que pode desacelerar o fim do mundo, são aqueles que não o destroem. São aqueles que sempre viveram sem causar impacto. Ao invés de tirar a visibilidade dessas pessoas, deveríamos estar escutando suas histórias e experiências, aprendendo com o que eles fazem.

A ideia de nós humanos nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória é um absurdo. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível a mesma língua pra todo mundo.

Ideias para adiar o fim do mundo não só aponta como estamos a beira do precipício para a autodestruição, mas nos mostra como chegamos até aqui. Ele nos provoca sobre o caminho que tomaremos depois de nos deparar com a nossa responsabilidade. Eu confesso que nunca me engajei muito com as pautas indígenas, apenas sempre achei que seria importante deixa-los agir conforme a cultura deles, mas nunca me atentei para o fato de que tudo no mecanismo está errado. Como pode o homem branco demarcar onde eles podem ou não viver, como podemos confina-los a um determinado espaço (espaço esse que sempre foi deles) ?

Está tudo errado e a primeira coisa para adiar o fim do mundo é  tomar um partido nessa história, é entender que mesmo que uma barragem rompa lá em Minas Gerais,  eu aqui no centro do São Paulo sou tão responsável como afetada por quem é vizinho desses crimes que geralmente são chamados de acidente.

E aí o que você tem feito para Adiar o fim do mundo ?

Ideias para adiar o fim do mundo
Autora: Aílton Krenak | EditoraCompanhia das Letras
Páginas:  88 | ISBN: 9788535932416
Skoob | Goodreads
Para ler: https://amzn.to/2QJczQy

Ósculos e Amplexos, Karina.

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