Resenhas

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade

14 de janeiro de 2021
Macunaíma
Livro Macunaíma, de Mário de Andrade, publicado pela Penguin Companhia

Mário de Andrade publicou Macunaíma em 1928. O livro foi um acontecimento. Debochado e intensamente brasileiro – ainda que muito pouco ou nada nacionalista -, este romance é ainda hoje um dos textos fundamentais do nosso Modernismo. E continua a influenciar as mais diversas manifestações artísticas. Nascido nas profundezas da Amazônia, o herói de Mário de Andrade é cheio de contradições – assim como o país que lhe serve de berço. É adoravelmente mentiroso, safado, preguiçoso e boca-suja. Suas peripécias vêm embaladas numa linguagem rapsódica e inventiva, um marco das pesquisas de seu autor em torno de uma identidade linguística brasileira.

Fonte da sinopse: https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=85177

Se você é brasileiro ou você já ouviu falar de Macunaíma e do Mário de Andrade, ou você vai muito em breve encontrá-los na sua vida escolar, e antes de falar sobre uma dos maiores clássicos modernos eu queria conversar por dois minutinhos sobre o tipos de leitura que livros nos permitem.

Para a maioria das pessoas ler é um ato de prazer. Nossos livros favoritos são escolhidos pela experiência de leitura que as histórias nos trazem. Partindo desse principio fica mai fácil entender porque a grande maioria tende a torce o nariz para a maioria do clássicos e desgostar de Macunaíma, já que nosso primeiro contato com clássicos muitas vezes é por conta das leituras obrigatórias da escola. Se você assim como eu gosta de e aventurar em gêneros completamente diferentes a dica é: ao ler, reler ou redescobrir um clássico escolha com muita paciência a edição, pois foi assim que eu deixei de odiar a leitura de Macunaíma.

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é a que chamaram de Macunaíma.

Esse parágrafo aí em cima já nos dá o tom da narrativa, do vocabulário e da construção de tratamento do personagem que vamos acompanhar. Depois de passar 1 semestre inteiro na companhia da Macunaíma, estudando literatura brasileira na faculdade cheguei a conclusão que, o que nos afasta desse clássico não é porque o texto é difícil, mas é porque não conhecemos nossas origens, raízes e palavras. É muito fácil no mundo da internet absorvemos no nosso vocabulário qualquer palavra estrangeira, porque então é tão difícil e incomodo descobrir o significado de palavras de origem Tupi? Cheguei a conclusão que o problema está muito mais em nós do que no texto.

Macunaíma
Livro Macunaíma, de Mário de Andrade, publicado pela Penguin Companhia

Mario de Andrade certamente é um dos maiores nomes da Semana Moderna de 1922 e como foi uma pessoa que transitou entre a escrita, a música e as artes plásticas podemos encontrar essa grande mistura e influência em Macunaíma. As descrições gráficas presente no livro durante a leitura muito se encontra com traços que conhecemos dos quadros famosos da semana de 22. O jeito malandro e debochado do personagem rompe com o movimento literário anterior. A migração que o personagem faz do campo a cidade reforça o movimento modernista que coloca a cidade como ‘centro do mundo’.

Qual é a história de Macunaíma?

O plot central dessa narrativa é a de um personagem mítico, uma mistura de diversas lendas indígenas, que nasce feia e desde criança apresenta comportamento sexuais muito exacerbados, que cresce muito rapidamente, que ama intensamente e que após a morte da sua amada sai em busca de seu talismã perdido, uma pedra o seu muiraquitã. A narrativa tem tons épicos já que narra um longo tempo da vida de Macunaíma que hora está no presente, hora se apresenta no passado, sem seguir uma ordem muito cronológica.

O povo brasileiro: nação sem nenhum caráter.

Essa é sem duvida uma leitura que vai te desafiar nos termos de lógica, se você decidir descobrir quem é Macunaíma vai ter que aceitar o fato de que ele pode morrer duas vezes na mesma história; que mesmo nascendo preto retinto em uma fonte pode tornar-se branco; a mágica dessa narrativa não está na história em si – apesar que você pode rir de inúmeras situações que o protagonista se enfia enquanto tenta resgatar sua pedra – está em ir descobrindo todas as alegorias que o texto esconde; o quanto todo o povo brasileiro tem de Macunaíma. O famoso jeitinho brasileiro nunca pareceu tão brasileiro quanto em Macunaíma.

Macunaíma, o herói sem nenhum caráter,  de Mário de Andrade
Mário de Andrade nos limites entre Amazonas e Mato Grosso. Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.

Macunaima é uma tentativa de construção de identidade do povo brasileiro, e numa primeira leitura a afirmação povo sem nenhum caráter me deixou meio incomodada. confesso. Porém, eis que depois de algumas pesquisas entendi que o termo caráter aqui não é empregada como falta de moral e sim como grande mistura e de diversas influências e isso não dá para se negar do povo brasileiro.

Refiz a leitura Macunaíma para o primeiro semestre de literatura brasileira na faculdade e que bom que mais uma vez precisei ler esse clássico. Sai da experiência de: odeio esse livro lá da época do colégio para: caramba preciso dessa edição na minha estante para revisitar daqui um tempo e entender o que por agora me passou despercebido. A edição que contém textos de apoio bem uteis é a da clássicos Penguin-Companhia, mas uma ótima fonte de referencia para esse livro são programas de literatura sobre a Semana de 22 e o programa Café Filosófico que convidou um especialista para falar sobre a obra.

Depois de tudo isso deixo vocês com mais uma pequena curiosidade o clássico escrito amais de 90 anos foi escrito em UMA SEMANA.

Macunaíma, o herói do nosso povo.
Autor
: Mário de Andrade
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 240 ISBN: 9788582850411  
Para ler:  https://amzn.to/3oIMRvz

Avaliação: 3 de 5.


Ósculos e Amplexos, Karina.

Macunaíma

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1 comentário

  • Responder Luma 14 de janeiro de 2021 às 12:09

    Nossa, adorei o formato! Faço parte da turma dos “traumatizados” pela a escola, mas da forma como você colocou, fiquei morrendo de vontade de ler! Parabens!

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