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Resenhas

A Bela e a Fera, de Madame Beaumont, e de Madame Villeneuve

A bela e a fera
Livro A Bela e a fera, de Madame de Beaumont e Madame de Villeneuve, publicado pela Editora Zahar com tradução de André Telles.

Adaptado, filmado e encenado inúmeras vezes, o enredo de A Bela e a Fera vai muito além da jovem obrigada a casar com uma horrenda Fera que no final se revela um lindo príncipe preso sob um feitiço. Nessa edição bolso de luxo da coleção Clássicos Zahar você encontra reunidas duas variantes da história.
A versão clássica, escrita por Madame de Beaumont em 1756, vem embalando gerações e inspirou quase todos os filmes, peças, composições e adaptações que hoje conhecemos. A versão original, que Madame de Villeneuve publicara em 1740, é de uma riqueza espantosa, que entre outras coisas traz as histórias pregressas da Fera e da Bela e dá voz ao monstro para que ele mesmo narre seu destino.
Toda em cores e ilustrada, essa edição conta com ótima tradução do premiado André Telles, uma apresentação reveladora e instigante assinada por Rodrigo Lacerda e cronologia das autoras. A versão impressa apresenta ainda capa dura e acabamento de luxo.

Fonte da sinopse: Companhia das letras

Acredito eu que não haja ninguém que não conheça minimamente o plot de ” A bela e a Fera” e muito provavelmente por conta do clássico seja ele o desenho ou filme da Disney, mas na resenha de hoje eu gostaria de levantar algumas informações que vão deixar você com mais vontade ainda de conhecer as outras versões.

A edição da Zahar nos traz um clássico em duas versões, mas o que isso quer dizer: isso nos mostra que o conto “original” e a palavra original está entre aspas porque me refiro ao conto que foi escrito (uma vez que a criação tem bases em histórias orais) na voz de duas escritoras, em períodos diferentes, mas o porque essa informação é relevante? “ A Bela e a Fera “ é um conto de fadas escrito por MULHERES em uma época que se tem registro e inúmeros nomes masculinos como autores do gênero.

A Bela e a Fera, de Madame Beaumont, e de Madame Villeneuve
Livro A Bela e a fera, de Madame de Beaumont e Madame de Villeneuve, publicado pela Editora Zahar com tradução de André Telles.

Em uma aula que tive na faculdade a abordagem nos questionava se A Bela e a fera não seria o primeiro conto de fada feminista (antes mesmo de existir o termo feminismo). O caráter subversivo do conto de fadas francês, é verdadeiramente revolucionário para a época e de certa maneira age na reavaliação da protagonista feminina, que ao contrário das heroínas tradicionais desse tipo de conto tem o poder de decidir sobre seu próprio destino (vale lembrar que Bela não é uma personagem que procurava um príncipe).

Prefiro o senhor com sua feiura àqueles que, sob a pele humana, escondem um coração falso, corrompido e ingrato

A edição da Zahar conta com uma apresentação do  Rodrigo Lacerda que nos dá um panorama histórico cultural, que é fundamental para enxergar o clássico de uma outra maneira.  

[…] no âmbito dos contos de fada e das histórias folclóricas, os dois eixos em torno do qual o enredo se articula- o tema do amante animalesco e a redenção de sua animalidade graças à pureza do amor […] .

Pensemos aqui não só nas versões de A Bela e a fera, mas também nos filmes que já vimos inúmeras vezes , apesar da personagem central ser A Bela a história existe porque temos uma Fera, a personagem feminina ganha destaque a partir do momento que o personagem masculino entra em cena com questões a serem resolvidas (você pode ou não concordar com essa abordagem, mas guarda essa informação ai).

A Bela e a Fera, de Madame Beaumont, e de Madame Villeneuve
Livro A Bela e a fera, de Madame de Beaumont e Madame de Villeneuve, publicado pela Editora Zahar com tradução de André Telles.

As versões originais de A Bela e a Fera

Madame Beaumont foi a escritora da forma mais conhecida atualmente que tem a data de 1756, a autora destacou-se em uma época majoritariamente dominado por homens no quesito educação. Beaumont tinha uma educação de alto padrão e sabia do poder que tinha em mãos; em sua versão da história, Bela era a mais nova de 6 irmãos, ajuizada e desde bebê a mais bonita.

Madame de Villeneuve em 1740 (16 anos antes da Madame de Beaumont) já fazia parte da segunda geração de escritores franceses que se dedicavam a contos de fada. De forma alegórica seu enredo de “A Bela e a Fera” criticava o sistema matrimonial, segundo Rodrigo Lacerda. Nessa versão Bela tinha 11 irmãos ao total mas ainda sim a mais bonita entre eles.

As diferenças entre as autoras está não só no tamanho da história. Enquanto o da Madame de Beaumont é curto como os contos que conhecemos, o da Madame de Villeneuve é bem mais extenso e detalhado. Enquanto um tem direcionamento para crianças o outro claramente fala mais com adultos.

Segundo TATAR (1999) o texto de Beaumont, escrito nos limiares do Iluminismo, reflete um subjacente desejo “de apaziguar os temores das jovens mulheres, reconciliando-as ao costume dos casamentos arranjados, e de pressioná-las a uma aliança que significa o apagamento de seus próprios desejos e a submissão à vontade de um ‘monstro'” [TATAR, Maria (Ed.). The Classic Fairy Tales: Texts, Criticism . London and New York: WW Norton & Company, 1999.].

A Bela e a Fera, de Madame Beaumont, e de Madame Villeneuve
Livro A Bela e a fera, de Madame de Beaumont e Madame de Villeneuve, publicado pela Editora Zahar com tradução de André Telles.

Tudo pode ser corrigido – orgulho, raiva, gula e preguiça -, mas a conversão de um coração mau e invejoso é uma espécie de milagre.

E ainda que a Bela não procurasse um príncipe, bem sabemos o final de todas as versões. Acredito que é por isso que “A Bela e a fera” ainda desperta tantas paixões. Algumas pessoas discordam, outras acham que a Bela sofre da síndrome de Estocolmo e outras ainda insistem em ver apenas como um filme de memória afetiva por permitir tantas abordagens que revisar clássicos pode ser tão incrível.

A Bela e a Fera (La Belle et la Bête)
Autora: Madame de Beaumont e Madamente de Villeneuve
Tradução:  André Telles | Apresentação: Rodrigo Lacerda
Editora: Clássicos Zahar
Páginas: 240 | ISBN: 9788537816042
Para ler: https://amzn.to/3vePo3y
⭐⭐⭐⭐⭐
Avaliação: 5 de 5.

Ósculos e Amplexos, Karina.

About Author

Biomédica por formação, bookaholic por paixão!

1 Comment

  • Fernanda Beltrame
    20 de maio de 2021 at 22:37

    Eu amo clássicos da Disney, meu preferido, mas fiquei morrendo de vontade de ler esse livro e olhar com outros olhos, com certeza eu vou ler. Resenha maravilhosa, faz a gente sentir vontade de correr e comprar o livro 🥰

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