Reinações de Monteiro Lobato, de Marisa Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz

18 de abril de 2019
Reinações de Monteiro Lobato

Quem acompanha o blog há um tempo sabe que fui uma criança que não cresci lendo os clássicos infantis brasileiros. Isso se deu por uma série de questões que não vou entrar em detalhes agora. Cresci sem ler os livros mais famosos de autores já consagrados da literatura infantil como Meu pé de Laranja Lima, A bolsa amarela, a série Vaga-lume e as histórias do Monteiro Lobato.

Mas tenho mudado um pouco essa situação me permitindo ler e conhecer essas obras. Li o meu primeiro livro do Monteiro Lobato no ano retrasado, o Memórias da Emília. Recentemente li A bolsa Amarela, da Lygia Bojunga e em breve farei leituras de outros livros que fizeram parte da infância e adolescência de muita gente.

Mas hoje, quero conversar sobre a leitura de um livro específico. Um livro que solicitei através da parceria com a editora Companhia das Letras: o Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia, escrito e organizado pela Marisa Lajolo e pela Lilia Moritz Schwarcz. E já vou adiantando e dizendo que simplesmente adorei o livro!

Para quem ainda não sabe a obra de Monteiro Lobato entrou em domínio público a partir de 1 de janeiro de 2019. Ou seja, a grosso modo, os textos e obras do autor podem ser disponibilizadas sem o direito a propriedade. Vale lembrar que o direito moral da obra, esse sim, é perpétuo. Há muitas informações sobre isso e acho muito importante a pesquisa para entender melhor essa questão do direito autoral.

Outro detalhe muito legal, é que hoje 18 de abril, o dia que estou publicando esse artigo, se comemora a data de nascimento de Monteiro Lobato. E também o Dia Nacional do Livro Infantil. Nada melhor que comemorar a data falando justamente do autor, não é mesmo!

Mas vamos voltar ao Reinações de Monteiro Lobato. A ideia do livro é justamente apresentar aos jovens leitores quem foi Monteiro Lobato. Para muita gente, Lobato é uma figura muito presente. Mas para os pequenos de hoje, o autor não é tão conhecido assim como achamos. Um leitor de 8 anos de idade talvez nunca tenha ouvido falar do escritor que criou todo o universo do Sítio do Pica Pau Amarelo que muita gente maiorzinha já conhece.

O livro é uma autobiografia, ou seja, é o próprio Monteiro Lobato contando para os leitores sobre sua vida e suas obras. Mas calma lá!!! Monteiro Lobato não voltou do mundo dos mortos ou o livro foi escrito através de psicografia. É um pouco diferente!

A Marisa Lajolo, grande especialista da obra do Monteiro Lobato, se juntou com a Lilia Moritz Schwarcz, antropóloga e historiadora, para fazer um livro que contasse sobre quem foi Monteiro Lobato e o que ele fez para se tornar um dos maiores escritores brasileiros. A ideia é que parecesse que o livro estava sendo contado pelo próprio autor. Acho que o que elas queriam é que esse livro ficasse bem próximo da maneira com que o próprio Monteiro fez quando escreveu Memórias de Emília. E o texto ficou bem bacana!

O trabalho editorial está primoroso. É um livro de capa dura com 88 páginas ricamente ilustrado e recheado de informações extras e muitas notas explicando coisas e fatos que muitas crianças não fazem ideia do que são. Escrito de uma maneira para que que o leitor sinta-se em uma conversa ou em uma roda de contação de histórias, a linguagem é leve, descontraída e divertida. É um texto voltado para as crianças que já tem uma certa dominação de leitura, mas os adultos também irão aproveitar o livro, principalmente se o intuito é lerem para os pequenos. O que acredito que seja uma das intenções do livro: promover a leitura entre pais e filhos.

Apesar de já conhecer parte da vida do Monteiro Lobato e das polêmicas que o cercam, aprendi detalhes importantes de sua vida e como ele acabou se envolvendo nessas polêmicas. As organizadoras conseguiram explicar sobre essas questões sem a intenção de justificar ou desculpar o autor. Na parte em que elas explicam todo o processo da criação do livro elas falam sobre isso:

… pois aprendemos que é preciso entender o autor dentro do seu contexto. […] Também não é nosso papel esconder todas as contradições que fizeram parte da vida do Lobato. Ao contrário, tratar delas só o deixa mais humano e mais próximo de você nosso leitor.
Mas implica entender, também, que todo o conhecimento se faz em processo – o seu e o nosso – e que é possível mudar de ideia, aprender de novo. Também vale a pena entender que um autor está sempre emaranhado na época em que viveu.

Reinações de Monteiro Lobato, pág. 70.

Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia é uma dica muito legal de presente para crianças que estão começando a conhecer o universo desse escritor. Também pode ser uma ótima indicação para os apaixonados e fãs do Sítio do Pica Pau Amarelo e também para todos os outros que conhecer quem foi Monteiro Lobato.

Reinações de Monteiro Lobato: uma biografia
Autoras: 
Marisa Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz | Editora: Companhia das Letrinhas
Páginas: 88 | ISBN: 9788525064752
SkoobGoodreads
Para ler: https://amzn.to/2Gj7zwW

Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie

26 de março de 2019
Hibisco Roxo

Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.

“Uma história sensível e delicada sobre uma jovem exposta à intolerância religiosa e ao lado obscuro da sociedade nigeriana.” – J.M. Coetzee. Fonte da sinopse Editora Companhia das Letras

Chimamanda Ngozi Adichie é uma autora apaixonante e que depois de ler o primeiro livro definitivamente queria ler até a lista de compras dela, a escrita da Chimamanda é mais do que falar de mulheres, ela fala para e por todas as mulheres que precisam descobrir novas experiencias, é extremante importante entender as realidades de diferentes mulheres em diversos cantos do mundo; e sem dúvida esse livro é muito mais que uma leitura obrigatória , é um mergulho numa outra realidade.

“Hibisco Roxo” é um romance narrado em primeira pessoa e é ambientado na cidade onde a autora nasceu. Narrada pela protagonista Kambili, uma garota de família rica, seu pai (Eugene) tem muita influência sobre a sociedade que os cerca; sua mãe é completamente submissa, vive para o marido e a família; enquanto seu irmão mais velho é um adolescente que apresenta vários momentos de confronto com o pai.

Hibisco Roxo

O elemento da religião é muito forte e presente nas relações entre a família, pois o pai dela é um católico fervoroso, muito rígido e que para quem vê de fora mantém uma família perfeita, daquelas de comercial de manteiga, mas logo nas primeiras páginas nos deparamos com momentos de violência doméstica, e isso instaura uma sensação de tensão. Ele não só controla os horários, mas também controla as interações sociais chegando até mesmo a estipular que as crianças só podem ver o avô por no máximo 15 minutos, pois ele não concorda com a posição religiosa do próprio pai (avô das crianças).

Pancadas pesadas e rápidas na porta talhada à mão do quarto dos meus pais. Imaginei que a porta estava emperrada e que Papa estivesse tentando abri-la. Se imaginasse aquilo sem parar, talvez virasse verdade.

Hibisco Roxo

Todos os personagens são muito completos e apresentam características contraditórias, ao mesmo passo que o pai é violento e rigoroso, ele ainda é muito generoso fazendo caridade para as pessoas menos favorecidas, ele é dono de um jornal que é o único que ainda se coloca contra o governo, que escancara os momentos que a Nigéria tem passado, como o golpe de estado e a greve da universidade.

A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.

Hibisco Roxo

A relação que as crianças têm além do círculo familiar direto é o contato com a tia delas Ifeoma que é viúva, professora universitária e mora com os filhos em Nsukka, uma cidade-universitária da Nigéria (que também citada em “Americanah” outro romance de Chimamanda) e tem vários desafios a vencer a fim de sustentar a família dela. A tia é também convertida ao catolicismo, mas diferentemente do irmão (pai de Kambili e Jaja) não rompeu relações com os pais, é contestadora, e incentiva os filhos a pensar, coisa que não acontece na família de Kambili.

Até então eu me sentira como se não estivesse ali, como se estivesse apenas observando uma mesa onde se podia dizer o que você quisesse, quando quisesse, para quem quisesse, onde o ar era livre para ser respirado à vontade.

Como sempre Chimamanda traz muito da sua vivência para seus romances, com uma linguagem bem simples e direta temos um retrato de família que nos mostra os perigos da colonização branca sobre a África, do extremismo religioso ou ainda de como imposições podem moldar a visão que se tem do mundo; com as relações que Kambili e o irmão desenvolvem com as novas pessoas que fazem parte do círculo da tia, fica claro a escolha do título, é como acompanhar o desabrochar de um novo mundo e novos pensamentos.

Hibisco Roxo é um livro denso, bonito, pesado, triste e necessário de uma maneira que Chimamanda nos empresta os personagens além das páginas, as reflexões nos seguem depois do último ponto final; a diagramação e a capa estão impecáveis e com certeza esse é um exemplar que vai para a minha prateleira de preferidos.

Hibisco Roxo
Autor
: Chimamanda Ngozi Adichie  | Editora: Companhia das Letras
Páginas: 328 | ISBN: 9788535918502
Skoob | Goodreads
Para ler: https://amzn.to/2TyHkr1

Ósculos e Amplexos, Karina.

The Chase: A busca de Summer e Fitz, de Elle Kennedy

22 de março de 2019

Todo mundo diz que os opostos se atraem. E deve ser verdade, porque não tem nada que explique minha atração por Colin Fitzgerald. Ele não faz meu tipo e, o pior de tudo, me acha superficial. Essa visão distorcida que ele tem de mim é o primeiro ponto contra. Também não ajuda que ele seja amigo do meu irmão.
E que o cara que mora com ele tenha uma queda por mim.
E que eu tenha acabado de me mudar para a casa deles.

Mas isso não importa. Estou ocupada o bastante com uma faculdade nova, um professor que não larga do meu pé e um futuro incerto. Além do mais, Fitzy deixou bem claro que não quer nada comigo, embora tenhamos uma química de dar inveja a qualquer casal. Nunca fui de correr atrás de homem, e não vou começar agora. Então, se o meu roommate gato finalmente acordar e perceber o que está perdendo…
Ele sabe onde me encontrar.
Fonte da sinopse Editora Paralela

The Chase é um spin off da série Amores Improváveis que finalmente chegou ao Brasil, temos aqui mais uma leva dos jogadores de hockey mais legais da literatura new adult! Se você não leu nenhum livro da seria Amores Improváveis não se preocupe, como os livros tratam de casais diferentes você pode tranquilamente ler fora de ordem, mas eu recomendo veementemente que você coloque todos na sua lista de livros a serem lidos num futuro bem próximo rs.

O nosso casal desse livro é a Summer (irmã mais nova do Dean lá do livro 3) e o Colin/ Fitz (para os íntimos); deixe se levar pelo clichê oposto se atraem porque é exatamente isso que vai acontecer aqui, enquanto Fitz apesar de jogar pelo time da Briar e ser um atleta bem competente ele também é super nerd, ama games e detesta ser o centro das atenções enquanto Summer estuda moda, foi expulsa da Brown por colocar fogo na república (gente quem apronta até ser expulsa de uma das universidades da Ive League?), adora festa e tem praticamente o mundo na palma das mãos.

O que aparentemente tem tudo para ser uma historinha superficial de casais que se apaixonam durante a faculdade aqui ganha a mágica de escrita da Elle Kennedy, Fitz não consegue abrir sua vida para que as pessoas realmente façam parte dela por conta de um passado abusivo enquanto Summer a garota que sempre teve o mundo na palma da mão, super extrovertida também tem seu lado de insegurança por conta de lidar com TDAH (transtorno de déficit de atenção).

Quero um homem com intenções claras. Que se esforce e se anime a passar o tempo comigo. Que queira me querer.

A química entre o casal está presente desde as primeiras linhas, e é ajudada pela narração  dividida entre o ponto de vista dos protagonistas, um tipo de narração que particularmente eu adoro,  mas um possível triangulo amoroso me deixou desesperada, se você assim como eu tem pavor de triângulos amorosos não se deixe desanimar;   num arranjo feito por Dean para ajudar Summer ela acaba indo morar na república do Fitz e ai a convivência rende cenas maravilhosas e a construção dos personagens faz com que a busca pelo crescimento dos dois vá além do romance, mesmo que de uma maneira bem sutil Elle aborda questões como assédio sexual de uma maneira muito importante, enquanto eu lia meus sinais de alerta acendiam juntamente com os da Summer.

Na faculdade, faço um pouquinho mais de esforço para ser sociável, mas, no fundo, ainda quero ser invisível. Summer é a pessoa mais visível que eu já conheci.

Dá mesma maneira que nos apaixonamos por cada personagem secundário que aparecia em Amores improváveis vamos nos apaixonar pelos que aparecem aqui em “The Chase”, quero o livro da Brenna para ontem! The Chase tem basicamente tudo o que eu estava esperando, eu queria encontrar aqui os velhos personagens por quem me apaixonei e sim eles  aparecem e também queria conhecer novos, a sensação de coração quentinho segue inabalada, todos os exemplares escritos pela Elle Kennedy tem um lugar especial na estante, espero que vocês curtam tanto a história quanto eu e Paralela por favor traz logo essa mulher pro Brasil!

The Chase: a busca de Summer e Fitz
Autor
: Elle Kennedy | Editora: Paralela
Páginas: 300 | ISBN: 9788584391363
Skoob | Goodreads
Para ler: https://amzn.to/2Y9yCDb

Ósculos e Amplexos, Karina.

Como falar com garotas em festas, do Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá

21 de março de 2019

Enn é um garoto de quinze anos que nunca se deu bem com as garotas, enquanto seu amigo Vic tem todas a seus pés. Na Londres dos anos 1970, auge do punk rock, os dois estão prestes a viver a aventura mais espetacular das suas vidas. Ao serem convidados para uma festa, conhecem as belas Stella, Triolet e Wain e descobrem mais segredos do que jamais poderiam supor. Do premiado Neil Gaiman, autor de Deuses americanos e Sandman, e adaptado e ilustrado de maneira extraordinária pelos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, Como Falar com Garotas em Festas é uma graphic novel eletrizante, uma jornada sobre as descobertas do amor, das diferenças e dos mistérios que cercam o amadurecimento. Fonte da sinopse Quadrinhos na Cia

Para quem me conhece minimamente não é segredo que eu amo Neil Gaiman, não é mesmo? Quando finalmente a quadrinhos na cia anunciou que traria para o Brasil a versão do conto do Neil Gaiman com os meus quadrinistas gêmeos favoritos foi um caso de amor ao quadrado, essa HQ é uma adaptação de um dos contos do Gaiman uma  feita pelas mãos dos gêmeos brasileiros e ilustradores Fábio Moon e Gabriel Bá (aqueles que já ganharam vários Eisners por obras deles e por adaptações) então já adianto que a hype se sustenta.

O plot dessa HQ é muito básico, temos dois amigos chamados Enn e Vic na faixa de 16 anos, enquanto Vic tem todo um porte atlético e faz o estilo pegador, Enn é todo magricelo e tímido; Vic tem toda habilidade na hora de xavecar garotas, Enn beijou apenas 3 meninas na vida toda e nunca precisou falar muito com elas.

É partir desse pano de fundo que Vic convence o amigo que eles deveriam ir a uma festa na casa de uma garota que ele conhece para que Enn apenas fale com as garotas, para que eles possam se divertir; Enn resiste bastante mas acaba aceitando e eles partem para a tal festa.

É quando os garotos chegam na festa que o quadrinho engrena e a escrita do Gaiman aparece. Vic logo de cara se aproxima da Stella, a garota mais bela da festa, e parte para o ataque, deixando Enn sozinho com o conselho de CONVERSAR, apenas fale com elas; assim Enn tenta fazer o que o amigo falou, porém, cada garota com quem ele trava um diálogo é mais estranha que a outra, para ele parece que as garotas são literalmente de outro planeta.

 

A narrativa é cheia de lirismo, falas subjetivas, e o traço e as cores acompanham o ar de estranheza; as garotas são descritas pelo Enn como maravilhosamente lindas, porém, os traços entregam olhos grandes, rostos angulosos, corpos esguios até demais, características que se analisadas separadas não traduzem beleza, mas que juntas ficam perfeitas.

Diferente do que o título sugere, essa não é uma HQ tipo manual que tem dicas de como se aproximar do outro, de como falar especificamente com outras garotas, tem muito mais coisas a aprendermos sobre a arte da observação, da arte de escutar e não apenas ouvir ou ainda de nos entender antes de tentar entender o outro.

Depois dessa experiência toda fechei a HQ já querendo reler, para quem já conhece a escrita do Gaiman é um prato cheio, para quem não conhece é uma ótima pedida para sair da zona de conforto e se jogar em novas experiências. Sem dúvida a HQ foi direto para a prateleira dos queridinhos!

 Como falar com garotas  em festas
Autor
: Neil Gaiman | Ilustração:  Fábio Moon e Gabriel Bá | Editora: Quadrinhos na Cia
Páginas:  80 |
ISBN: 9788535929652
Skoob | Goodreads 
Para ler: https://amzn.to/2Jviclc

Ósculos e Amplexos, Karina.